O texto desta semana com o Breno é sobre Aids e camisinha, e abaixo segue uma história real, como só poderia ser, já que o blogjob é todo baseado em mulheres reais. Os nomes foram alterados, mas só isso. Patricia e Victor existem. Jordi morreu. Este não é um texto com opiniões, não é uma discussão, não tem conselhos. É só um conto. Só a primeira vez em que vamos falar de Aids e camisinha aqui. Até junho de 2007, mais de 205 mil pessoas morreram de Aids no Brasil. Segundo a página do Ministério da Saúde, foram identificados 314.294 casos de aids em homens e 159.793 em mulheres. Em 1985, havia 15 casos da doença em homens para 1 em mulher. Hoje, a relação é de 1,5 para 1. Na faixa etária de 13 a 19 anos, a partir de 1998, a maioria dos casos é entre mulheres. Não deixem de ler o texto do Breno no Coisa de Homem, é espetacular.
Punk
Eles se conheceram no metrô de Barcelona. Patricia andava por ali, passos ritmados, sem vontade, a caminho de mais uma aula no curso de pedagogia. Das mãos, que balançavam acompanhando o ritmo dos quadris sensuais e belos, saltavam unhas irregulares e dedos frágeis, exageradamente brancos, com a pele fina, transparente como um feto. A boca grossa, bem desenhada, luzia na cara.
Perdia-se na massa que percorria o túnel do metrô, apenas uma catalã bonita de cabelos sujos, pintados de ruivo, dona de um corpo bem feito que nunca fez ginástica.
Jordi estava agachado no chão. A mão direita, morena, com dedos finos e arredondados nas pontas, como os de Patricia, estava erguida, estirada pra cima. Pedindo esmolas, chamava a atenção dos que passavam com seu cabelo sujo organizado num moicano pintado de azul e as sobrancelhas, desenhadas como as de uma mulher, espetadas com alfinetes de prender fraldas de neném.
A pele moura ficava realmente bela com transparentes olhos verdes, mas esses ninguém via, porque não havia razão para olhar nos olhos mais um punk na Espanha dos últimos anos 90.
Ela parou e lhe deu umas moedas. Eles se olharam, sorriram e se apaixonaram, assim, sem mais pedir um do outro.
Patricia ficou ruborizada, e tomada pela razão que tantas vezes não admite o amor, se despediu e saiu andando pelo corredor de azulejos encardidos em direção ao trem. Não viu que ele corria refazendo seu caminho, e se surpreendeu quando, alguns segundos depois, o amor veio pegá-la pelo braço. O punk, sorrindo, pediu para conversar.
Ela encarou Jordi por entre as lentes dos óculos de armadura em tom perdido, algo entre laranja e vermelho, como seus cabelos. E sorriu doce, aceitando o convite em catalão e perdendo de bom grado o trem pra pedagogia.
Foram pra praça Catalunia, no centro da trabalhadora Barcelona, um dos berços da burguesia espanhola, quiçá da burguesia européia, tomado de assalto por uma juventude vinda de todos os lados, viciada em expressar visualmente sua falta de lugar no mundo.
Desconstruindo seu corpo sujo, Jordi fazia arte catalã à sua maneira, mesmo porque nunca se emocionou com Miró, achava Dali muito bicha e gostava do Gaudí do mesmo jeito que um dia havia gostado do Barça, porque os dois representavam seu país, que nunca foi a Espanha, mas a Catalunia. Fazia arte com uma estética escolhida com quase vinte anos de atraso.
Jordi caprichava no movimento das mãos e no charme do olhar enquanto fumava com Patrícia na saída do metrô. Entre turistas, yuppies, imigrantes pobres com feições indígenas e árabes, putas do leste europeu com corpos esculturais e pele muito branca, putas da África com corpos esculturais e pele muito negra, americanos de bermuda cáqui, europeus com roupas de revista e todas as variedades de alternativos, cercados por prédios altos onde grandes decisões corporativas nos andares de cima se mesclavam com ondas de compulsão consumista nas lojas de departamento dos andares de baixo, combinaram um encontro mais tarde na praça do trip.
Naquela noite, sentados nas escadas de concreto da tal praça, esta cinza, suja, escura, em torno das quais pequenos bares reuniam a boemia sem dinheiro da cidade, eles se beijaram. O mundo parou.
As dores de Jordi foram as suas daquela madrugada em diante. Outras dores de Patricia foram também aquelas que Jordi a fez sentir. Nunca foi tão pura, tão santa, tão mulher, tão virgem, quanto na vida ao lado dele, vivendo as dores de um homem.
Encontraram a felicidade reservada aos mártires do amor católico, desta vez, abençoado num apartamento sujo, grande e velho. Ela, mártir dele e de suas dores. Ele, mártir da doença.
Desde sua construção, há mais de cento e dez anos, o apartamento alugado por Patricia nunca fora reformado. Depois de um século, aquele espaço todo entre o teto alto de gesso enfeitado e o chão de diferentes padrões de azulejos decorados estava, finalmente, repleto de amor.
Cento e dez anos de casamentos frios, de solteironas sofridas, de punheteiros abandonados com seus membros sem imaginação. Cento e dez anos de uma frigidez que, parecia, nunca se despregaria das paredes.
Despregou-se. Deu lugar aos gritos histéricos que só pode inspirar o prazer proibido. Cada orgasmo era uma afronta.
Todo o amor era improvável.
O sexo finalmente rompia o proibido, sem que o gozo jamais rompesse a camisinha. Cinco anos e nenhuma camisinha estourada. Cinco anos e nunca sua saliva molhou a vulva daquela santa. Sua porra jamais lhe molhou as coxas, a cara, as mãos. Amor sem porra, ou amor com porra educada, sempre contida num véu de látex.
A rotina dos exames de Aids instalou-se na vida de Patricia, sem que ela se importasse.
Ela soube nas primeiras semanas de namoro que Jordi tinha a doença. Sentiu medo, mas não foi nada como o chão se abrindo embaixo de seus pés, com certeza. Se apaixonou, afinal, por um cara na hora em que ele pedia esmolas, sujo, com o corpo cheio de furos, no chão do metrô. Sim, porque naquele mesmo dia em que ele estirou os braços pra pedir esmolas, tirou mais tarde o casaco de couro na praça. E, descuidado, revelou outros furos que não tinham sido feitos na pele por alfinetes, mas por seringas. Eram alguns, roxos, marcando as juntas dos braços. Buracos pra heroína passar.
Aquela doença, na vida de Jordi, era lógica. A infância entre marroquinos e ciganos no subúrbio foi sujeita aos porres da mãe prostituta. Ainda moleque fugiu das surras, assim que as pernas lhe alcançaram os passos necessários. Aos treze anos já dormia na rua, onde encontrou uma paz pra dormir que nunca teve na sua cama.
Aos 20, quando conheceu Patricia, tinha sete anos de rua. Na rua aprendeu a viver dos restos que a burguesia aprendeu a gerar na Catalúnia muito antes de fazê-lo em quase todo o resto do mundo. Nas ruas descobriu as esmolas e os furtos pra pagar a heroína. Aos 15 anos descobriu a Aids. Jordi era um punk atrasado na história, mas foi vanguardista da doença. A Aids veio sem drama. Não dava para ser punk e sentir medo de morrer. Tudo fazia sentido naquele mundo que era o único que conheceu. Até conhecer Patricia.
Aos 20 anos, Jordi conheceu o amor. A garota catalã acabava de sair da casa dos pais, e ele deixou o prédio abandonado que ocupava com outros neo-punks no bairro de Gracia para viver com ela. A amiga do curso com quem tinha alugado o imóvel saiu em poucos dias, horrorizada com aquele homem. Outras pessoas saíram de sua vida. Preencheram eles os metros de apartamento e ali diferentes amigos do casal, quase sempre junkies, alugaram o segundo quarto.
Dividiam jantares leves, porres de cidra, noites ao som de Sex Pistols gravado em fitas cassetes tocadas num aparelho de som pouco confiável. Pintaram um símbolo tribal gigante na parede de frente pra lareira de mármore. E Jordi fez crescer um mar de pés de maconha, todas fêmeas, na varanda imensa do apartamento grande. Foram felizes. Muitas vezes. E miseráveis, muitas outras.
Aquele amor ensinou ao punk as melhores sensações que já tinha experimentado, ao preço das melhores sensações que conhecia. Era o amor ou a heroína. O amor ou o existencialismo das ruas. O amor ou o prazer da destruição. E esse prazer não é pouco.
A cada tanto Jordi se desligava de Patricia, de todo aquele amor que, apesar de tanto, não conseguia lhe dar tudo, pra se preparar pro seu pulo no abismo. Ele pulava parado, escorado em alguma rua mijada e cheia de ratos, onde a heroína encontrava velhos buracos pra entrar. Entrava e reinava.
E o raio da heroína que, apesar de tanto, não conseguia lhe dar tudo, ainda convidava para a festa manchas rosas que lhe cobriam a pele e ardores de febre que lhe faziam ver a morte. E a morte nunca o havia assustado antes. Mas agora ele conhecia Patricia. A garota aquele dia no metrô lhe roubou, com uma esmola, o direito de morrer em paz.
Jordi voltava para o apartamento centenário, feito um trapo, fétido, enfermo, desgraçado. E Patricia, luzindo inteira, não só a boca carnuda, mais branca e míope que nunca, abria a porta.
Patrícia nunca se sentiu especialmente boa em nada. e, como não se achava grande coisa, não chamava muita atenção dos homens. Nunca teve uma grande paixão, as causas não lhe moviam, não gostava de esportes. Bebia pouco, não fumava maconha, só cigarro. Começou a trabalhar cedo como babá, para fazer bicos, e não parou mais embora nunca tenha encontrado muito prazer nisso.
Agora, imbuída de um poder como divino, sentia uma força que nunca tinha sentido em sua vida frágil que, sem Jordi e suas dores, não conhecia qualquer sentido. Por cinco anos ela cuidou das crises em que o corpo berrava pra agulha entrar nos buracos do braço do seu homem. Ele urrava na cama, suava, delirava. Ela trancava portas e janelas para ele não sair nem pular. Chorava, sofria e virava o trapo que ele era.
Ele acordava, um dia, como curado, dono de um amor grato que já não era o maior que aquele apartamento tinha visto. Era o amor maior daquele bairro inteiro. E o bairro era medieval.
Recorria ao AZT e não faziam sexo por um tempo. Até o remédio reduzir tanto a carga viral que ela não era detectável, embora ele continuasse contaminado. Os pés de maconha cresciam mais frondosos na varanda e ele não usava nenhuma droga além de sua erva cultivada e de boas bolas de haxixe misturadas em cigarros de tabaco, goles de cidra, café, açúcar e, de vez em quando, coca-cola.
Os amigos apareciam no apartamento com seus problemas e riquezas. Foram tantos, tão soltos na vida, passando por aquele apartamento enorme, que o sótão foi-se enchendo de mochilas e bolsas fétidas. Cada um que pedia para guardar ali alguma coisa agia como se fosse voltar logo. Alguns sumiram, alguns foram presos, outros morreram. Mas a maioria acabava mesmo era esquecendo onde tinha largado o que tinham deixado no sótão de Jordi e Patricia. Com o tempo, os dois também não sabiam mais o que estava lá. E as coisas iam perdendo o cheiro. Ficavam só coisas. Muitas coisas.
Chegaram os parentes. Quer dizer, as irmãs e o irmão.
As duas irmãs de Jordi se acercaram por gratidão a Patricia. Canonizaram a garota, como ela bem merecia, e reaprenderam a amar o irmão. Uma delas, descobriria depois, também tinha Aids. Nunca usou heroína, pegou do marido que tinha injetado cocaína há muito tempo.
O irmão dela chegou porque precisava de um lugar pra dormir. Foi um encontro incrível. Victor era um neo-hippie. Veio de chinelas de couro, cabelo comprido, roupa bordada. Fedia como Jordi, mas tinha outros hábitos. Heroína, nem pensar. Sua praça também era outra. Ía pro parque da Ciutadela encontrar os seus. Eles gostavam de tocar percussão. Organizavam vários tambores numa performance desastrosa de percussionistas brancos. Dançavam na rua, em ritmos que eles acreditavam ser tribais, eram vegetarianos, tinham poucos músculos e rumavam pra França no outono para colher frutas.
Foi com a mochila cheia de cerejas, um pote de geléia e dois pães integrais que Victor bateu à porta da irmã pela primeira vez. Voltava da França, onde morava com outra neo-hippie, quinze anos mais velha, para uma visita a seu país. Evitou a casa dos pais. Os pais deles eram velhos hippies reformados. Tinham deixado pra lá boa parte do que pregaram nos anos 60 e morriam de desgosto pelo genro punk e pelo filho cabeludo.
Victor tocou o timbre e conheceu Jordi. Se gostaram de imediato. Organizaram um belo jantar, com cerejas, geléia de cereja, pão integral e cidra barata, para esperar Patricia chegar do trabalho de babá. Trazer o irmão pra sua vida foi um dos momentos mais felizes da catalã. E eles conversaram horas ao som de reggae e ska.
Teria sido tudo muito imaculado, não fosse um dente do Victor cair no meio da ceia. Vida alternativa tem seus percalços. Frutas são cheias de açúcar e ninguém escova os dentes cada vez que colhe sei lá quantas cerejas. Era o terceiro dente que ele perdia até os 25 anos. Os outros eram manchados.
Os irmãos tinham dentes fracos, que julgavam ser herança de uma criação macrobiótica. Até os três anos de idade, Patricia nunca comeu um produto de origem animal. Nada. Zero. Um dia, a mãe se descuidou dela no meio do supermercado. Quando deu por si, encontrou a filha ao lado do balcão de peixes, com um filé de merluza gelado metido na boca. Incluiu proteínas na dieta dos filhos. Com o tempo, foi incluindo tantas coisas na vida que, finalmente, deixou de ser hippie.
A visita durou onze dias e ele foi embora pra França, mas os irmãos branquelos acabaram se encontrando alguma vezes durante aqueles anos de amor. Victor assistiu, mais de uma vez, Jordi em um de seus baixões, de volta à heroína ou prestes a reatar seu namoro com ela. Também o viu padecer de Aids. Nunca o julgou por nada, porque simplesmente não era de sua natureza julgar.
Ele era Jesus, que compartia o pão e a compreensão com as frutas que trazia na bolsa. Ele era Jesus com os cabelos longos como os da irmã e as sandálias de couro e batas de tecido cru. Não esticava a mão para cima pedindo misericórdia: abria os braços pros lados oferecendo luz. Bom, pelo menos acreditava nisso. Como Patricia se acreditava Maria. E Jordi se acreditava um anjo caído.
Ainda assim, Victor teve um choque inicial com a doença, e consigo mesmo. Naquela primeira ceia conheceu Jordi manchado de rosa e magro. Não precisou perguntar nada. Parecia que o cunhado tinha as quatro letras escritas na testa e ele não conseguia parar de lê-las: AIDS.
Victor se pegou olhando as xícaras guardadas no armário e lavando-as, mesmo limpas antes de tomar qualquer coisa. Parou pra olhar a tampa do vaso antes da primeira cagada no apartamento da irmã e limpou a superfície muito bem antes de encostar as coxas no plástico. Ainda assim, sentou-se desconfortável.
Não dividiu um beque com o cara, não pediu uma bola. Fumou mais tarde, sozinho. Fumou sempre sozinho. Jordi nunca ofereceu o seu, nunca pediu o dele.
Aconteceu, no entanto, que muito rápido um milagre se instalou entre o punk e o hippie-cristo. Foram dias só, e Jordi deixou de ser Aids pra ser o fã de Sex Pistols, o cara que contava piadas ingênuas, o mestre no cultivo da erva mais apreciada por Victor, o cara magro e alto e moreno que encheu o apartamento de amor. Não tem como a riqueza do mundo de alguém, de qualquer um, perder a queda de braço com um vírus. Assim como Patricia, Victor olhava para Jordi e era só isso o que via: Jordi.
Mas o tempo se instalou nessa estória de amor, e algumas coisas foram mudando. Essas mudanças não encontraram os freios da convenção, e caminharam livres, sem prestações para pagar, sem pressão da família, filhos pra criar e, muito, muito menos, aparências pra manter. Com o passar do tempo, Patricia foi-se cansando dos giros da roda na qual amarrou o próprio corpo. E se amarrou em parte porque não sabia mesmo pra que lado ir, e a roda malograda do Jordi lhe dava alguma direção, mesmo que não levasse a nenhum destino.
Amarrou-se a Jordi, um pouco, por cansaço. Agora, se cansava dele. E aquele amor ia chegar ao fim.
O fim do amor punk de Jordi e Patricia, quem diria, seria igual a todos os outros. Porque todos os amores parecem únicos, quando não são. E todos os fins parecem patéticos, por que são.
Ele a traiu com uma garota punk do País Basco que andava pra cima e pra baixo com um rato branco de estimação. Terminaram uma vez. Ela ficou com dois amigos dele, bebeu muita cidra pra fazer isso e não sentiu tesão nem ternura, transou como uma puta, em troca de vingança. Eles voltaram. Terminaram. Voltaram. Foram se machucando e se desrespeitando até que a dor resolvesse as coisas por eles.
Jordi foi-se embora aos 25 anos do apartamento que um dia tinha enchido de amor. Partiu com dez anos de Aids e mais que isso de heroína. Um dos homens mais fortes do mundo. Foi morar com outros punks numa das cavernas da ilha de Menorca, na costa espanhola, e namorou meninas que, como ele, também namoravam a heroína.
Patricia, aos 24 anos, decidiu terminar a faculdade. Voltou a pegar o metrô, continuou se sustentando com os trabalhos de babá e, alguns meses depois, conseguiu um estágio. Um estágio como professora na cadeia. Foi pra aula, no primeiro dia de trabalho, com a calça apertada, os cabelos vermelhos e sujos presos num rabo-de-cavalo, os olhos míopes ainda mais sonhadores e embaçados porque se esqueceu de limpar as lentes dos óculos de armação vermelha ou laranja. Chegou no portão do presídio, respirou muito fundo e se identificou sorrindo para entrar. Sabia que iria se apaixonar.